A Internet virou infraestrutura estratégica

No início dos anos 2000, havia um otimismo quase ingênuo: a Internet parecia uma ferramenta natural para ampliar oportunidades, democratizar informação e reduzir distâncias. O imaginário libertário da época (como o manifesto de John Perry Barlow) ajudou a criar a sensação de que a rede seria “terra de ninguém” — e, ao mesmo tempo, “terra de todos”. Hoje, a fotografia é outra: fraude em escala industrial, desinformação, vigilância, censura e conflitos geopolíticos empurraram a discussão para um ponto mais duro — a Internet virou infraestrutura estratégica. (CircleID)

É justamente por isso que o texto “Internet Governance Outlook 2026: Finding the Right Path Between Fear and Hope”, publicado no CircleID, acerta em cheio quando propõe olhar 2026 como um ano de decisão: a governança da Internet (o “como” e o “quem” define regras) precisa encontrar um caminho entre o medo e a esperança. A mesma discussão aparece, por outros ângulos, no Global Cybersecurity Outlook 2026, que descreve o risco cibernético como cada vez mais sistêmico, conectado à economia, à política e à confiança social. (CircleID)

A seguir, um panorama autoral (e prático) do que está em jogo em 2026 — com implicações diretas para cidadãos, empresas e governos, inclusive no Brasil.


1) Cibersegurança deixou de ser “TI”: virou tema de Estado (e de guerra)

Um ponto central do debate de 2026 é a mudança de status da cibersegurança: não é mais só “proteger rede e endpoint”; é segurança nacional e, em cenários extremos, fator de “guerra ou paz”. O artigo do CircleID chama atenção para a corrida armamentista digital e para a integração crescente da Internet em operações militares — defesa e ataque. (CircleID)

Ao mesmo tempo, há um movimento global para tentar “colocar trilhos” em crimes digitais. A Convenção da ONU contra o Cibercrime foi aberta para assinatura em Hanoi em 25 de outubro de 2025 — um marco por ser um instrumento global voltado a cooperação e resposta ao cibercrime. (UNODC)
Só que isso vem acompanhado de um alerta: acordos internacionais podem fortalecer a cooperação… ou serem usados como atalho para vigilância e repressão, dependendo de como forem implementados. A própria cobertura jornalística registrou críticas de grupos de direitos e preocupações sobre definições vagas e potenciais abusos. (Reuters)

Tradução para o público geral: em 2026, “segurança” é cada vez mais desculpa (ou justificativa) para decisões sobre o que você pode acessar, publicar, criptografar e até como empresas devem operar.


2) Fraude com IA é o “novo normal” — e o impacto é social, não só financeiro

Se você tivesse que escolher um único tema para explicar por que 2026 é diferente, eu apostaria em: fraude ciber-habilitada (phishing, golpes, engenharia social, deepfakes, golpes por canais digitais).

O World Economic Forum indica que fraude e phishing ultrapassaram ransomware como principal preocupação de CEOs, e que 73% dos respondentes foram (ou conheciam alguém) diretamente afetados em 2025. Além disso, 94% dos líderes esperam que a IA seja a força mais determinante moldando a cibersegurança em 2026, e 87% relataram aumento de vulnerabilidades relacionadas a IA no último ano. (World Economic Forum)

Isso não é “só mais um relatório”: é um sinal de que o crime digital está migrando para onde o retorno é mais previsível — o humano. A IA reduz custo de personalização, acelera escala e aumenta credibilidade de ataques. Resultado: golpes mais convincentes, mais rápidos, mais difíceis de distinguir.


3) Cadeia de suprimentos e dependência digital: quando “o problema do fornecedor” vira o seu problema

Outra virada importante é a percepção de que o risco não está apenas no seu ambiente, mas nos seus terceiros: provedores de software, bibliotecas, plugins, serviços em nuvem, integradores, etc.

O Fórum destaca que riscos de terceiros e supply chain viraram barreira central de resiliência (especialmente em empresas grandes) e alerta para efeito cascata quando incidentes atingem provedores essenciais de internet e nuvem. (World Economic Forum)
Na mesma direção, o ENISA descreve aumento e sofisticação de ataques à cadeia de suprimentos — incluindo pacotes maliciosos, comprometimento de repositórios e até crescimento de “secret sprawl” (segredos expostos) detectado com aumento reportado de 25% entre 2023 e 2024.

O que isso muda na prática? Em 2026, segurança não é só “patch e antivírus”: é também governança de dependências, controle de fornecedores, auditoria e capacidade de resposta a incidentes compartilhados.


4) Direitos digitais em queda: censura, vigilância e “apagões” de Internet

O texto do CircleID trata a pressão sobre direitos (especialmente expressão e privacidade) como uma das áreas mais críticas do ano. (CircleID)
O problema é que isso já não é abstrato: “apagões” e bloqueios se consolidaram como ferramenta política. A Access Now e a coalizão #KeepItOn documentaram 283 shutdowns em 2023, o maior número desde 2016. (Access Now) E reportagens apontaram que, em 2024, interrupções forçadas por governos chegaram a patamar recorde (ao menos 296 incidentes em 54 países, segundo análise baseada no levantamento da Access Now). (Axios)

Em janeiro de 2026, por exemplo, a situação no Irã voltou ao noticiário internacional com um blackout severo e parcial relaxamento posterior — mostrando como conectividade pode ser regulada “na marra” em momentos de crise. (The Guardian)

Linha direta com cibersegurança: quando a rede vira instrumento de controle, a fronteira entre “proteção” e “repressão” fica perigosamente nebulosa.


5) IA: a corrida por vantagem estratégica e a falta de “guardrails” globais

A IA aparece como força transversal em 2026: turbina golpes, acelera ataques, amplia monitoramento e muda o mercado de trabalho — mas também oferece ganhos reais de defesa e produtividade.

O CircleID aponta um cenário de disputa por liderança (e por “padrões”) e descreve iniciativas multilaterais em andamento para discutir governança de IA, inclusive diálogos e painéis científicos no contexto da ONU. (CircleID)
Já o Fórum enfatiza o “ponto de virada” do risco: em 2026, crescem as preocupações com vazamento de dados ligado a GenAI e com IA como acelerador do ciclo ataque/defesa. (World Economic Forum)


6) Recursos críticos da Internet: DNS, endereços IP e o fantasma da fragmentação

Aqui mora um risco que pouca gente fora do setor percebe: quem governa os “recursos críticos” da Internet (nomes de domínio, endereços IP, root servers) governa, indiretamente, muito do que acontece online.

O CircleID descreve que discussões na International Telecommunication Union podem voltar a pressionar por mais controle governamental sobre esses recursos — com a conferência plenipotenciária prevista para 2026 no Qatar como um marco potencial. (CircleID)
Ao mesmo tempo, a ICANN entra em 2026 com movimentos relevantes (como a rodada de novos gTLDs) e com eventos de comunidade, além de debates sobre segurança e estabilidade (DNSSEC e temas correlatos). (CircleID)

A palavra-chave aqui é fragmentação: se diferentes blocos políticos empurrarem padrões e controles incompatíveis, o usuário final pode acabar vivendo “internets diferentes” dependendo de onde está, do provedor e das regras locais.


7) Onde entra a esperança? WSIS+20 e o reforço do modelo multissetorial

Nem tudo é distopia. Um elemento de esperança citado no artigo do CircleID é o resultado do WSIS+20: o documento final foi adotado por consenso em 17 de dezembro de 2025, reiterando a visão de uma sociedade da informação centrada nas pessoas, inclusiva e orientada ao desenvolvimento. (publicadministration.desa.un.org)

Além disso, há esforços para preservar (e atualizar) o modelo multissetorial. Um exemplo é a reafirmação do Internet Governance Forum como plataforma central de discussão de governança da Internet no contexto do Compacto Digital Global, citada em observações publicadas pela ICANN. (icann.org)

Em termos simples: a esperança não está em “um governo mandar” ou “uma empresa mandar” — está em mecanismos onde governo, empresas, academia e sociedade civil tenham papéis claros, responsabilidades e transparência.


8) O que fazer, na prática, em 2026?

Para o seu blog (e para seu leitor), vale fechar com ações concretas:

Para empresas (de PME a enterprise):

  • Trate fraude e engenharia social como risco nº 1: processos, treinamento contínuo e controles de identidade (não só “campanha anual de phishing”). (World Economic Forum)
  • Reforce governança de terceiros/supply chain: inventário de fornecedores críticos, SLAs de segurança, validação de integridade e plano de contingência. (World Economic Forum)
  • Crie regras para uso de IA corporativa: o problema de 2026 não é só “IA maliciosa”, é vazamento acidental e sombra de dados. (World Economic Forum)

Para cidadãos:

  • Assuma que “o golpe” pode parecer real: confirme por outro canal, desconfie de urgência e de pedidos de código/PIX.
  • Cuide do básico que virou diferencial: autenticação forte, atualização, backups e higiene digital.

Para governos e formuladores de política pública:

  • Segurança sem direitos vira instabilidade: transparência, due process e proteção à privacidade não são “luxo”, são base de confiança social. (Axios)

Fechamento

2026 não é só “mais um ano de ataques”. É um ano em que a pergunta muda de lugar: qual Internet vamos aceitar como normal? Uma Internet governada pelo medo — com controle, fragmentação e golpe em escala — ou uma Internet governada por cooperação, inovação responsável e direitos.

O caminho “entre o medo e a esperança” não é poético: é operacional. Ele passa por decisões de arquitetura (recursos críticos), por regras econômicas (plataformas e impostos digitais), por acordos internacionais (cibercrime), por proteção a direitos e por preparo real para um mundo onde a IA acelera tudo — inclusive o crime. (CircleID)

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